A senhora que não lava mais branco...
Por muitas vezes fico incumbida de ir buscar o meu querido afilhado à escola. Por volta das 17h30 (alguns dias por semana) meto-me a caminho. Geralmente durmo sempre uma sesta antes de o ir buscar. Moro num bairro tipicamente lisboeta, Carnide. Ao longo do caminho da escola, que faço a pé, passo por casas baixinhas, algumas delas quase em ruínas. Mas, não é isso que realmente me assusta. O que me assusta é aquela senhora que apanho quase sempre a estender a roupa. Ai! Valha-me Deus! Aqui no bairro todos sabemos que a tal senhora não joga com o baralho todo. A casa dela é rasteira, dando a sua porta directamente para a rua por onde todos nós passamos. É um autêntico pardieiro! Um curral que mete inveja a muitos currais medievais. Isto tudo pelo cheiro que vem lá de dentro, dos inúmeros cães que por lá passeiam, pela roupa e lixo acumulado ao longo de meses e meses de uma incrível labreguice e descuido. Não sei como é possível! Chego mesmo a achar que a senhora não tem água canalizada porque a vejo muitas vezes a ir ao chafariz, carregada de garrafões vazios. Luz eu sei que não tem, porque no Inverno, quando passava à porta para ir buscar o puto, via-se uma luz pouco clara, lá dentro, longe da vista dos transeuntes. Uma vela! Bom, hoje foi mais um dos dias que passei à sua porta e a vi, muito contente e orgulhosa a estender a sua roupinha. Olhei e pensei para mim "Decerto não usa Tide, nem Skip, nem Persil, muito menos usa Xau..." . Que cor horrível tinha aquela roupa. Encardida, suja, como se não tivesse visto um pingo de água ou sabão. Enfim, os caros leitores poderão nem achar nenhum piada ao meu relato, o certo é que... Eu também não. Em pleno século XXI, com Portugal na final do (antes malfadado mas agora bendito) Euro 2004, muitos bairros continuam a pertencer a peças de teatro medievais, onde o povo continua a ser o povo e, onde os nobres continuam a ser os nobres.

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